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Dono da uma agência de consultoria esportiva, Ronaldo Fenômeno quer ser gestor de um time de futebol. No Brasil ou no exterior.

Quase sete anos depois de encerrar uma carreira irretocável como jogador de futebol, Ronaldo Nazário ainda não conseguiu se tornar um fenômeno no mundo dos negócios. A 9ine, empresa de marketing esportivo que ajudou a fundar em 2011, sucumbiu à crise e encerrou suas atividades no ano passado. Sua primeira experiência como cartola nos EUA também durou pouco. Nada que abale a confiança (nem as finanças) do brasileiro que revolucionou o esporte nas últimas duas décadas. Aos 41 anos, Ronaldo vive em Madri, viaja o ano todo para promover seus projetos e buscar parceiros – as academias de futebol (Ronaldo Academy) e a valorização da imagem de seu herdeiro da camisa 9, Gabriel Jesus, são as principais apostas no momento. Ainda tem como negócios a CNB eSports Club, um dos mais tradicionais clubes de e-sports do Brasil; a LIV Drinks (empresa brasileira de bebidas como chás, água de coco e sucos); e a Fundação Fenômenos.

Ser gestor de um clube de futebol (talvez no Brasil) também é uma meta. Em São Paulo, na sede da Octagon, agência de consultoria esportiva da qual é o maior acionista, o ex-atacante falou a VEJA sobre os percalços da nova carreira, suas próximas metas e sua fé no Brasil – apesar da decepção com os políticos.

Qual foi seu primeiro negócio? Não lembro… Mas desde cedo me vendo, trabalho com minha imagem no futebol. Sempre fui muito curioso, queria entender como tudo funcionava. Fiz negócios imobiliários durante a carreira e sempre fui muito conservador quanto a investimento, nada em especial. Depois que parei de jogar, passei a investir.

Pouco depois de se aposentar no Corinthians, você já investiu forte em marketing esportivo. Quis descansar de início, esquecer a rotina estressante de jogador, que tive por vinte anos. Mas ficar sem fazer nada também cansa. Comecei a imaginar alguns negócios que teriam a ver comigo, com minha experiência de jogador, e criamos a 9ine, uma agência de marketing esportivo. Foi muito bom.

A 9ine já nasceu muito grande… Sim, era uma parceria com a WPP e trabalhamos bem em dois cases, de Anderson Silva e Neymar. O Anderson já era campeão do UFC e o desafio era justamente transformá-lo no ídolo em que se tornou. Fizemos um belo trabalho. E também fizemos os primeiros contratos grandes do Neymar, como a Claro e Guaraná.

E por que a empresa não vingou? Há uns dois anos, encerramos a operação por causa da crise que nos afetou. Nessa situação a primeira coisa que as grandes empresas cortam é publicidade, o que era fundamental na minha receita. Para uma agência de publicidade é importante ter clientes grandes e a 9ine não tinha nenhum desses contratos de 300 ou 400 milhões de reais que normalmente fazem as empresas sobreviver. Mas continuo nesse ramo agora com a Octagon, é um mercado que me fascina.

E a sociedade com Fort Lauderdale Strikers, clube dos Estados Unidos? Saí há quase dois anos. Mas tenho simpatia e carinho. Estou fazendo pesquisa, buscando clubes de futebol, quero ter uma experiência como gestor de um clube, estou olhando o mercado em geral, até o Brasil.

O risco nos negócios o atrai? O risco é controlado, entendo disso. Falando das academias, o risco que temos é não oferecer o que prometemos, por isso precisamos acompanhar e capacitar os professores. Tudo é calculado. Nós nos reunimos constantemente com a equipe financeira para estudarmos as opções de negócio.

Sua principal aposta no momento são as academias de futebol? É uma aposta forte, que nasceu com o objetivo de investir no esporte, retribuir o que o futebol me deu. O futebol é uma paixão no mundo e virou produto importante. Estamos indo bem, temos mais de 100 academias vendidas, várias já abertas no Brasil, Estados Unidos, Suíça, Colômbia e China.

Qual posição é a mais difícil: a de empresário ou de artilheiro? Fora do campo é muito mais difícil. Fazer gols era fácil e muito mais rentável também (risos).

O Brasil tem jeito? Tem sim. Vivemos um momento difícil, no geral, não é problema só político. Toda essa confusão com a Lava Jato tem de ser motivo de esperança, não podemos perder a fé. Temos de acreditar que vai melhorar, que está acabando a impunidade. Agora vai ser cada vez mais difícil enganar o povo. Mas os políticos são um reflexo da sociedade e somente com a participação maior da sociedade teremos melhores representantes.

Mas o tombo na política foi grande, em todos os partidos. Você se sentiu enganado? Todos fomos enganados, o povo principalmente. Mas creio que a participação popular esteja crescendo. Não devemos só discutir de quem foi a culpa ou o erro, mas debater algo que impossibilite os políticos de ter a possibilidade de roubar. A sociedade tem de cobrar.

Os escândalos chegaram ao futebol. Isso o incomoda? É uma vergonha para todos, temos de sentir vergonha desses dirigentes que estão sendo presos. Mas discutir só o esporte nesse panorama é pequeno, o problema no Brasil é maior que a corrupção no esporte.

Pensa em se tornar político? Fui sondado algumas vezes, mas não tive vontade ainda.

Mas não eliminou a possibilidade? Não, mas sinto que já faço um trabalho de político no futebol, sou o político da bola, vivo para desenvolver o futebol, para apoiar o futebol. Isso é política, de alguma maneira, mas ainda não penso em me dedicar 100% à política.

E ser cartola da CBF? Não, por enquanto não. Agora toco meus negócios, estou fazendo uma pesquisa grande para encontrar um time de futebol e não penso em CBF. Precisamos de renovação na CBF e nos clubes também. Precisamos de gente nova, com mais energia, seriedade. Não há mais espaço para caixa dois, sonegação.

E ser treinador? Isso eu prometo que nunca serei, excluo totalmente da minha vida. Não me imagino com 25 jogadores me aporrinhando o dia inteiro, fazendo de tudo para me enganar (risos)

O senhor também é seu cliente? Sim, tenho uma equipe toda trabalhando e de vez em quando eles me oferecem (risos)

O senhor disse que a rotina de jogar era estressante. Mas continua com muitos compromissos como empresário, certo? Sim, mas não é uma rotina definida. Sou muito ativo, quero sempre produzir. Trabalho vinte dias intensamente e depois descanso dez, não tenho horário, sou completamente dono do meu tempo. Tenho quatro filhos, sinto saudades de todos. Moro em Madri há um ano e meio, faço algumas viagens normalmente para Dubai e China como embaixador do Real Madrid.

Gosta de viajar? Agora mais ainda. Antes só conhecia aeroporto, hotel e estádio. Agora a experiência é outra, faço uma imersão na cidade, na cultura local, gosto muito.

Qual tipo de negócio mais o atrai? Sou muito curioso e atento ao mercado, acompanho um pouco de tudo em todos os segmentos. E, claro, gosto de coisas ligadas ao esporte, à sustentabilidade, e tenho dedicado muito tempo aos projetos d

a minha fundação. É gratificante oferecer oportunidades para jovens.

Como foi a conversa com Barack Obama no Brasil, na palestra que ele deu em outubro? Ele falou muito sobre investimento e capacitação dos jovens, justamente o que fazemos na Fundação Fenômenos, com o prêmio Solidário. Curti muito, fiquei encantado com a palestra dele, ainda mais quando ele mandou me chamar após a palestra. Falamos uns cinco minutos, ele me chamou de rei do “soccer”, tiramos foto. Mas não foi com meu celular. Eu estava louco para postar, mas não as imagens. Vou ter de pedir ao FBI (risos). Obama é um líder com uma experiência incrível.

O senhor fala bem inglês? Morei dois anos em Londres e meu inglês melhorou muito. Tenho boa conversação. Em todos os países em que joguei aprendi a língua. E qualquer aprendizado nunca é demais, sempre fiz questão de estudar a língua local antes de dar entrevista. Isso evita que sejamos mal interpretados. Em três ou quatro meses já falava espanhol e italiano. Holandês demorou mais tempo, mas hoje já esqueci tudo (risos).

“Fazer gols era fácil e muito mais rentável também”

 

Seu principal cliente na Octagon é o Gabriel Jesus. Acredita que ele tenha um carisma semelhante ao seu? Temos uma história parecida, ele começou a fazer sucesso muito novo. É nosso atleta exclusivo e estamos muito felizes. É um garoto talentoso, está evoluindo muito rapidamente. Percebo muito talento e vontade de evoluir. E fala abertamente de tudo, sem problema, estamos orgulhosos e o vende

mos muito bem. Sempre digo aos jovens: sejam curiosos, busquem conhecimento, otimizem o tempo ocioso da concentração para estudar algo, fazer um curso.

Nesse sentido, o Gabriel se vira melhor que o Neymar? Não sei como o Neymar está agora, falo pelo Gabriel. O que planejo para ele é que seja autossuficiente, que tenha interesse por tudo, que resolva comigo as coisas, que discuta com os parceiros. Quero que o Gabriel esteja preparado para qualquer tipo de situação. Sempre busquei isso, queria estar confortável na hora de conversar com qualquer pessoa, e me preparei para ir além do futebol.

Na sua época, também levava um grupo grande de amigos a todos os lugares? Levei muitos amigos para viajar, sim. Até nisso o Gabriel Jesus demonstra ser diferente da maioria, porque leva os amigos para morar na Europa e faz questão de capacitá-los. Os meninos estão estudando vídeo e fotografia para trabalhar com ele. Esse é um exemplo claro de como otimizar tempo e aproveitar a experiência de estar morando fora do Brasil.

Sente algum desconforto em ser comentarista na TV? Não, mas é um desafio. Tenho dificuldade com as questões técnicas, falar com alguém no ponto eletrônico. Vejo o que o Galvão Bueno faz, fala, escuta o ponto, faz chamadas, vinhetas, slogan, é muita coisa ao mesmo tempo. Precisa ter talento… Não consigo pensar com alguém falando no meu ouvido. Mas gosto de comentar, porque futebol não é um mistério para mim.

Qual é sua principal característica como comentarista? Sou privilegiado pela vivência de campo, consigo entender algumas situações muito melhor do que quem não esteve lá dentro, perceber a vontade que o jogador tinha de fazer alguma coisa…

E não vê conflito de interesses em comentar jogos de um cliente seu? Não vejo conflito ético nem moral. Comento o que vejo, não há relação direta do comentário com o personagem, não me interessa se é o Gabriel, o Neymar ou qualquer outro. O que nunca vou fazer é comentário maldoso, que falte com o respeito. Minha maneira de comentar é a mesma com todos os jogadores.

Isso também não causa nenhum ruído nos negócios? Não deveria, eu vendo o futebol, vivo do futebol, meu universo é esse, sou credenciado para falar de futebol a qualquer momento e sobre qualquer assunto ligado a futebol. Se me tirarem o direito de falar de futebol, vou falar de quê?

Atualmente, muitas estrelas, como Messi, Cristiano e Neymar, têm problemas com o Fisco espanhol. O senhor nunca teve problema? É preciso buscar os melhores profissionais e a melhor estratégia para a carreira. Gastei muito dinheiro com advogados e profissionais para fazer tudo direitinho. Pois quando ocorre algo errado, é um problema dobrado, porque, além do aspecto financeiro, a imagem fica arranhada – e é difícil recuperar.

Esses atletas costumam se defender dizendo que apenas assinaram os contratos e confiaram nos assessores. Mas não podem fazer isso. Têm de arranjar tempo para ver tudo, têm de se interessar pelos próprios negócios.

O senhor nunca assinou um contrato sem ler? Nunca, não existe nenhum risco de isso acontecer. Participava das negociações, da elaboração dos contratos, acompanhava de perto. Não com tanta atenção como agora, porque quando jogava tinha menos tempo. Mas tem de debater, discutir, questionar, tem de saber de tudo.

Seu contrato com a Nike é vitalício? É. Essa é uma maneira de fidelizar o atleta, mas na verdade o contrato é renovado a cada cinco anos.

O senhor vê desgaste na imagem dos jogadores? Criou-se a ideia de que jogador ganha muito dinheiro, quando na verdade é a ponta que menos ganha. Direitos de TV e patrocínios estão sendo negociados por 500 milhões de libras. Para ir à Copa do Mundo, o jogador não ganha um centavo, enquanto a Fifa ganha 5 bilhões de dólares. Quando o Neymar foi vendido, todos ficaram assustados com os valores, mas se alguém pagou é porque sabe que vai ter retorno muito maior.

O senhor se envolveu em transferências polêmicas, jogou em rivais na Itália e na Espanha. Teve medo de alguma escolha? Não, sempre tive sorte e faria tudo de novo, não me arrependo de nada. A saída do Neymar do Barcelona foi parecida com a minha. Se bem que eu fui para a Inter de Milão quando o campeonato italiano era bem mais forte do que o francês é hoje. Mas sou a favor do desafio, isso me motiva muito.

Acha que o Neymar foi para o PSG pelo desafio? Não sei. Não tenho detalhes, não sei o que existe por trás da negociação, pode ter havido problema com a diretoria do Barcelona, como foi o meu caso.

O que aconteceu com o Adriano Imperador para não ter vingado como era esperado? Sem dúvida ele não recebeu a mesma ajuda e orientação que eu tive, por exemplo. Mas torço muito para que ele encontre o equilíbrio e fique bem, porque a vida no futebol é desgastante e passa rápido. E sem fazer gols é mais difícil, entra menos dinheiro… Talvez ele não tenha se preparado para a vida pós-futebol. É uma pena, porque ele não aproveitou ao máximo o talento que tem, era o centroavante que ia continuar a história de craques na posição. Também deu azar de se machucar. Possuía uma força incrível e teria muitos anos na seleção.

A exposição nas redes sociais atrapalha o atleta? A internet também virou um grande negócio. Não podemos ignorar a importância de cada um ter seu canal de mídia, um lugar para se expressar. Mas há quem goste de se expor demais, é preciso ter cuidado. Sempre tento me comunicar com meus fãs, postar fotos e vídeos que sejam do interesse deles, mas também uso bastante para trabalho, quase 80% para isso.

Como seus filhos lidam com sua fama? Para eles não sou o Fenômeno, sou o pai. Minhas filhas menores às vezes questionam por que tenho de tirar foto, dar autógrafo. Elas querem o pai o tempo todo para elas, têm ciúmes. Mas sei que os dez segundos que perco para atender um fã pode fazer a pessoa ficar feliz o dia todo, então não vejo como problema.

Nos últimos vinte anos, ficou algum dia sem dar um autógrafo? Só quando não saio de casa (risos). Mas não ligo, atendo todos. Faço isso por causa do meu ídolo, Zico. Quando tinha 8 ou 9 anos, fui a um Flamengo x Vasco com meu pai, fiquei na porta do vestiário para pedir fotos. Alguns jogadores nem pararam. No fim, o Zico conversou comigo, me deu um autógrafo em um pedaço de papel que guardo até hoje. Aquilo me marcou de uma maneira muito profunda e espero que as pessoas sintam algo parecido quando as atendo.

O senhor sempre desperta a atenção das crianças. É incrível lidar com elas. Queria ter mais filhos, mas é preciso calma, filho é muito caro (risos). Quatro está bom, por enquanto.

Como é a relação com Alex, o filho que reconheceu aos 5 anos? É fantástica, ele é um ótimo menino. Uma pena ter perdido tanto tempo até saber que era meu filho. Mas quando o encontrei pela primeira vez, antes do exame de DNA, ele me agarrou e fiquei convicto de que era meu filho, nem precisava do exame.

Reconhecer filho fora do casamento já causou danos à imagem de craques como Pelé e Maradona. Temeu sofrer o mesmo? Sigo meus valores, os ensinamentos que tive de meus pais e procuro ser o mais correto o tempo todo. Reconhecer filho é obrigatório. E o Alex se inseriu muito rapidamente na nossa vida, tem bom relacionamento com os irmãos. Faço duas viagens por ano com os filhos: no meio do ano vamos fazer farra na minha casa em Ibiza (Espanha). E em janeiro normalmente vamos esquiar.

O senhor trabalhou com Tite um curto período no Corinthians. Ele está no lugar certo? Sim, está. Além de conhecer muito futebol, é um excelente administrador de pessoas, mantém todos motivados, tem relação fácil com todos, se comunica bem. É muito carismático, amigo, só tenho coisas boas para falar dele. Seu lugar está mais do que certo, a seleção está bem representada e temos chance com ele na Copa.

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